Chegar a casa

Lua Cheia_30 dezembro 2020

Esta lua envolve-nos nas águas maternais, num mergulho que nos dá a ver as feridas por/a curar. Bela oportunidade de sarar fraturas passadas, no limiar de um novo ciclo, que queremos projetar limpo de despojos. Caminhar carregando ressentimentos e rancores amplia o peso de cada passo e ofusca a visão.

O ano que agora termina surpreendeu-nos a todos, por variadas e nem sempre coincidentes razões, e se há lição que aprendemos é a certeza da incerteza. Nesta teimosia cega em que persistimos, queremos crer ser capazes de controlar o fluxo da existência, moldando-o aos nossos desejos. Esquecemos pois o mistério, a vontade maior da inteligência superior que nos rege.

Nada de trágico aqui. Apenas uma chamada de atenção para a relatividade do indivíduo no mundo, com o qual interage em potência criativa absoluta, no limite das circunstâncias por si mesmo escolhidas aquando da encarnação. Digamos que se trata de um jogo para aperfeiçoar as qualidades da alma, no seu seguro regresso à casa maior, corpo de Deus.

Porém, tal como o E.T. apontando as estrelas, dedo cintilante a pedir refúgio, seguimos encandeados pela nostalgia do retorno. Queremos recuperar o Paraíso perdido, a União primordial, na variante moderna da narrativa romântica, com carreira de sucesso, filhos louros e rosados (de preferência um casalinho), mais gadgets de última geração. E nesta ânsia trocamos dentro por fora, o ser por ter e fazer, ignorando que já estamos onde sonhamos chegar. O convite é, pois, respirar — acolher, deixar partir —, reconhecendo que a casa somos Nós, pois dentro de ti, de mim mora Deus, aqui e agora.

Image Diana V. Almeida. Street Art. Lisboa.