O não do sim

Lua Nova_10 junho 2021

Nos ensinamentos do Kundalini Yoga, identificam-se dez Corpos Espirituais (incluindo aquilo a que vulgarmente chamamos corpo, na dimensão física da matéria), entre eles a Mente Negativa. Ao contrário do que o nosso anseio de categorização, muitas vezes com pendor moralista, nos poderia levar a crer, a Mente Negativa não é má, nem deve ser ignorada, pois permite-nos dizer “não”, criando limites e abrindo, assim, novas possibilidades.

Nesta lunação, a energia encontra-se de novo ampliada por um eclipse, conhecido como anular, porque a lua negra ficará no centro do sol envolvida por um halo luminoso, na perfeita união dos princípios feminino e masculino. Tendo em conta que os eclipses são portais sagrados, que projetam as nossas escolhas no tempo, mais importante será criar um hiato na rotina para avaliar caminho e definir direções.

Sugiro, pois, usarmos o poder do “não” para deixar cair tudo aquilo que deixou de servir o nosso propósito, nestes tempos de mudança profunda, em que a máxima “o que resiste persiste” é mais válida do que nunca. Estaremos ainda em luta contra alguém ou contra os princípios por si representados? A um nível profundo, a revolta presta homenagem à potência que pretendemos deixar para trás, em tradução livre de Eudora Welty, sábia ficcionista. O desafio será usar o “não” em magnitude, recusando servir — ainda que indiretamente, por referência — princípios que nos derribam.

Como ritual de Lua Nova, poderás escrever uma lista de “nãos”, comprometendo-te a deixar cair os hábitos que pesam na tua vida. Usa o Corpo Físico como barómetro e, em silêncio, sente a vibração energética da tua escolha — qualquer contração é sinal de tensão e agora queremos, cada vez mais, fluir em alegria e leveza. De seguida, encontra o teu contraponto afirmativo e lista aquilo a que, em consciência, queres dar tempo e energia — afixa esse papel num lugar bem visível, para ancorar a força. Possa o teu “não” ser um “sim”.

Image Diana V. Almeida. Street Art, Lisboa.