Entre o sonho e a vigília

Lua Cheia_27 abril 2021

Entre o sonho e a vigília jaz um vasto território por explorar. Esta Lua traz ao de cima tais mistérios, levando-nos a viajar pelos limiares internos, para podermos rever antigas escolhas e redirecionar o movimento no sentido adequado à nossa evolução espiritual.

Trata-se aqui do culminar de um processo de desapego e de reequilíbrio iniciado na anterior lunação, em que fomos confrontados com a desagregação de estruturas que queríamos acreditar estáveis. Na verdade, esta tensão entre velhas e novas formas vai marcar todo este ano, num momento em que a consciência planetária se debate entre modelos políticos baseados na hierarquia e na força e um modo de estar em que o indivíduo e as comunidades locais emergem como líderes.

Por política entendo tanto o domínio privado, como o público, segundo a teorização feminista que considera o espaço doméstico e as suas dinâmicas como reflexo do mundo, um pouco à semelhança dos ensinamentos místicos que fazem corresponder o interior ao exterior. De facto, cada vez mais se torna evidente o imperativo de ancorar a nossa vida, de cada um e de todos, numa consciência depurada e livre de manipulação demagógica — ao serviço da concentração de capital, como evidencia a presente crise, é bom recordar, em que as pequenas e médias empresas familiares se veem privadas de liberdade de ação, contribuindo assim para aumentar a margem de lucro das grandes corporações.

Importante, pois, honrar os elos com a natureza — abraçar árvores e bichos está na ordem do dia! — e apurar as tecnologias sagradas que nos permitem recalibrar o corpo físico-energético, enquanto templo do espírito que em nós habita nesta vida. Depois, é seguir em frente, dançando entre o sonho e a vigília, além de qualquer ilusão de controlo.

Image Diana V. Almeida. Street Art, Lisboa.

(re)Começar confiando

Lua Nova_12 abril 2021

Quando julgavas ter passado por todas as mortes, todas as ressurreições, a vida surpreende-te e de novo te convida ao lugar primeiro. Conquanto a nossa mente procure enclausurar-se em regras e certezas, o mundo prossegue seu périplo pelos corações trespassados.

Queremos amar mais ainda, além dos limites da nossa pequena medida. Por isso precisamos de (re)começar vez após vez, deitando fogo ao velho. Contemplas as chamas, incorporas seu calor, assistindo à deflagração daquilo que quiseste guardar intacto, incorrupto. Tudo muda a cada instante, mesmo Deus, em sua (re)criação contínua no plano da matéria.

Lança ao lume aquilo que te prende ainda, sem pejo nem rancor. Queima aquilo que resiste e fica entregue ao silêncio, escutando só crepitar antigas dores, que talvez afinal nem sequer te pertençam. A língua das labaredas sobe por tudo aquilo que entregas à combustão. Reconquistada a leveza, prosseguirás, confiando na força que nos assiste em cada renascimento. Apontemos rumo, sim, deixando embora o caminho revelar-se pelos secretos sinais da Vontade Maior.

Image Diana V. Almeida. Street Art, Lisboa.

Ser fiel

Lua Cheia_28 março 2021

Uma das condições primeiras da experiência humana é a dança das polaridades, contrariando o nosso apego à fixidez, a crença teimosa de que conseguiremos parar o fluxo da vida e guardar as circunstâncias que (em dado momento) consideramos ideais. Projetamos no exterior cenários de eternidade, instituindo, de imediato, condições para o nosso acrescido sofrimento. Esta mania afeta sobretudo o Ocidente, aferrado à hiper-racionalidade, protegido pelo usufruto das benesses da colonização, resultado das tecnologias de guerra que nos permitiram conquistar meio mundo, sob uma ética dissociativa que via no outro alguém menos que humano.

Esta super lua, tão gorda no céu, recorda-nos a importância de equilibrar distâncias, qual fiel da balança no ponto do meio, para aferir medida justa, princípio do acordo entre partes díspares. Num momento em que é tão fácil adotar o dogmatismo, reforçando ruturas, na certeza absoluta da verdade, será interessante poder oscilar entre cá e lá, para ver e incluir diversidade, numa síntese de opostos criadora do novo.

Para realizar com êxito este jogo de equilíbrio, urge alinhar o nosso eixo interno, através de práticas como a meditação, as disciplinas físico-energéticas (o Yoga, o Chi Kung, entre outras), ou a contemplação da natureza e o exercício criativo. Também as nossas opções de consumo, tanto a nível alimentar como de vestuário e entretenimento, são vitais para garantir a estabilidade deste fulcro, num momento em que a velocidade da mudança é a nossa única certeza.

Ser fiel começa, pois, pela escolha de cultivar e refinar a atenção, para saber reconhecer e aceitar aquilo que é, além da cortina mental que nega ou elabora. Tal implica apurar o silêncio interno, num mundo que domina pelo incessante ruído, gerado tanto pela instantaneidade da gratificação, à velocidade de um clique, como pelo imenso manancial de informação que nos chama, segundo a lógica do quanto mais melhor. Na verdade, porque por vezes mais é menos, ser fiel começa sempre no singular, no compromisso contigo mesmo, cabeça sob o coração.

Image Diana V. Almeida. Street Art, Lisboa.

O presente agora

Lua Nova_13 março 2021

É no zénite que o sol, iluminando, projeta mais sombras. Assim, nestes tempos de renovação profunda, somos convidados — eufemisticamente, pois talvez verbos de força, como “empurrar”, sejam mais adequados para descrever as reais circunstâncias desta dinâmica — a visitar a nossa sombra.

Para a nossa alma sobreviver ao embate da matéria, vamos adotando desde cedo estratégias de negação e fuga que, embora úteis no contexto da infância, se tornam empecilhos à nossa maturação. Como o mundo atual pede sobretudo sucesso e eficácia (talvez por ordem inversa!), vivemos num planeta povoado por crianças de corpo crescido, que se recusam, obstinadas, a fazer o trabalho de mergulho interior imprescindível ao progresso individual e coletivo.

Estamos sempre a tempo, porém, como nos recorda a própria mecânica sagrada do corpo, com células nascendo e morrendo a cada segundo, ao ritmo do sopro. A respiração ecoa em nós o universo, no seu ciclo de expansão e contração, de abertura e retorno, e este metro sublime lembra ser o movimento parte intrínseca da vida.

O ar move-se em danças invisíveis em nosso redor, recordando a infinita multiplicidade da forma. Dizem as escrituras yóguicas que a consciência do nosso próprio fluxo respiratório é a porta para superarmos a ilusão da permanência e o apego ao visível.

Somos corpo vivo em velocidade e espanto. Possamos, pois, chamar nosso ao presente agora, e nele fazer fluir toda a mudança, rendidos ao curso divino da vida, disponíveis para acolher as revelações, os segredos da inspiração.

Image Diana V. Almeida. Street Art, Lisboa

O deleite da beleza

Lua Cheia_27 fevereiro 2021

Por vezes caminhamos como cegos pelo mundo, alheios à imensa beleza da obra da Deusa, fechados na nossa pequena prisão mental. A dor retira-nos a curiosidade por tudo o que dia-a-dia desabrocha em nosso redor. Esquecemos o espanto ante o movimento que desfralda a eterna novidade da matéria.

Por outro lado, projetamos a confusão interna que nos tolhe no espaço que habitamos, caindo no caos. Agarramos relíquias do passado, sem compreender que jamais teremos ensejo ou paciência para abrir tanto baú. Criamos pois uma malha energética estagnada que nos prende, procurando ocultar a passagem do tempo através deste empenho aquisitivo e/ou cumulativo.

Esta Lua pede depuração e criatividade, contemplação e deslumbramento. Vamos deixar partir o que já não faz parte ativa de nós, para dar espaço ao novo e concentrar força em propósitos maiores. Vamos ver os múltiplos milagres da existência — desde as trocas celulares do nosso corpo, até à dança do cosmos. Respiremos em crescente consciência, honrando os elos com a casa Mãe que nos nutre e pelo espaço nos transporta. Sigamos o deleite da beleza.

Image Diana V. Almeida. Street Art, Lisboa

Novos ângulos

Lua Nova_11 fevereiro 2021

De novo se opõem no céu as velhas estruturas caducas e o misterioso futuro construído a cada instante, por cada um e todos nós. Os sistemas fundadores das nossas vidas estão de momento a sofrer um abalo profundo, desde o governo, até à saúde ou à educação (que o digam os casais com filhos em idade escolar, agarrados ao ecrã dia após dia).

A mudança de paradigma pode ativar em nós duas forças — o instinto de sobrevivência enraizado no medo, pedindo luta e conquista (a visão darwinista que forjou a competitividade como mais-valia); o reconhecimento da nossa comum vulnerabilidade e o ímpeto de tecer redes de apoio (aliás, segundo a mais recente teoria da coevolução, foi cooperando que o ser humano prosperou). A falsa sensação de segurança ancorada na defesa, focada naquilo que nos divide, pode, pois, ser permutada pela força advinda da assunção da fragilidade, face ao destino superior que nos comanda.

Respirando sempre, neste balanço inesperado que nos agita, vamos abraçar novos ângulos, cientes de que chegou o tempo de assumir a liberdade de escolha, entregues em confiança amorosa. Recordemos que “a matéria coalesce em torno da frequência”, ou seja, aquilo em que escolhes colocar atenção ganha corpo e torna-se a tua realidade. Queremos, então, reforçar a couraça, aumentando o peso do nosso desconforto, ou nutrir uma mudança criativa, capaz de sonhar, planear, implementar, ajustar e celebrar (os cinco passos do método Dragon Dreaming!) um mundo novo?

Image Diana V. Almeida. Street Art, Lisboa.

Explosões internas

Lua Cheia_28 janeiro 2021

Esta Lua traz à tona de modo bombástico as nossas contradições, convidando-nos a examinar zonas obscuras que devemos continuar a trabalhar, feridas que queremos sanar. A tensão é tamanha que abala as nossas mais fortes resistências, reduto de antigas crenças que nos transmitiam uma falsa sensação de segurança, em diversos áreas, desde os relacionamentos até à política, passando pela alimentação e pela saúde.

De facto, a atual conjugação planetária desafia a rigidez e de novo nos convida à atenção plena, ancorada no momento presente, em total entrega ao fluxo da vida. Esta energia expansiva pode, pois, ampliar medos e estratégias de negação (não vai correr bem, escusado será dizer!), ou sustentar o movimento ascensional coletivo para uma mais elevada vibração de consciência.

Podemos persistir na reiteração de crenças externas, baseadas na religião, na ciência ou em quaisquer outros sistemas de pensamento totalitários que se apresentem fechados, com respostas prévias. Ou podemos assumir responsabilidade pelas nossas convicções, reconhecendo que os conceitos pelos quais nos regemos são, afinal, construtos energéticos, com impacto material no mundo. Sim, sabemos ser condicionados, em maior ou menor grau, pelos paradigmas epistemológicos da cultura em que nascemos, mas, crescendo em maturidade, tornamo-nos progressivamente responsáveis pelas ideias que professamos e propagamos.

Vamos continuar a encobrir a nossa dor com esquemas que obedecem a uma lógica cumulativa (mais coisas, mais dinheiro, mais estímulo, mais informação, mais amnésia, mais…), ou optar por ativar os recursos internos que nos ligam à fonte da alegria? Vamos interrogar a programação massiva a que estamos a ser sujeitos, sob o domínio do medo, ou escolher fazer pesquisa? Vamos persistir em eleger a razão como faculdade suprema, ou começar a usar os dados da nossa perceção sensorial, ligando-nos à intuição e aos planos mais subtis da existência? O que vais tu explodir nesta lua?

Image Diana V. Almeida. Street Art, Lisboa.

Pontapé de saída

Lua Nova_13 janeiro 2021

Esta lunação conjuga a energia de duplos recomeços, tanto deste novo ano (que prossegue em modo de  recolhimento), como do vazio inicial do próprio ciclo cósmico (que pede presença para semear intenções). Os astros acentuam o desajuste dos velhos paradigmas que nos conduzem às cegas, mas oferecem também a possibilidade de mergulho para ver atrás de cena, descobrindo as armadilhas da repetição que nos levam a querer mais do mesmo, sem ousarmos sair do nosso confinamento.

O desafio será, pois, chegar ao fundo do movimento, percebendo aquilo que realmente nos motiva. Avanças a partir de projeções mentais, num cenário competitivo em que atribuís aos outros o poder de te julgarem por sucessos inventados? Ou caminhas partindo do centro do teu desejo, renovado no equilíbrio dinâmico entre silêncio e (rel)ação? A alegria com que danças cada passo é, por certo, um sinal verdadeiro deste alinhamento.

Uma vez traçada a rota, cabe-nos perseverar, em flexibilidade e firmeza, tomando os erros como instrumento de navegação. Encerrados no quadro do perfecionismo e da culpa personalizamos tudo, vendo os erros como sinal de fraqueza. Porém, só errando mais e melhor (como dizia Beckett) podemos aperfeiçoar os nossos dons. Recordemos que o mestre falhou mais vezes do que o discípulo sequer ousou começar. E demos o pontapé de saída livres de suspeita e medos, para seguirmos num cada vez mais amplo raio de ação.

Image Diana V. Almeida. Street Art, Lisboa.

Chegar a casa

Lua Cheia_30 dezembro 2020

Esta lua envolve-nos nas águas maternais, num mergulho que nos dá a ver as feridas por/a curar. Bela oportunidade de sarar fraturas passadas, no limiar de um novo ciclo, que queremos projetar limpo de despojos. Caminhar carregando ressentimentos e rancores amplia o peso de cada passo e ofusca a visão.

O ano que agora termina surpreendeu-nos a todos, por variadas e nem sempre coincidentes razões, e se há lição que aprendemos é a certeza da incerteza. Nesta teimosia cega em que persistimos, queremos crer ser capazes de controlar o fluxo da existência, moldando-o aos nossos desejos. Esquecemos pois o mistério, a vontade maior da inteligência superior que nos rege.

Nada de trágico aqui. Apenas uma chamada de atenção para a relatividade do indivíduo no mundo, com o qual interage em potência criativa absoluta, no limite das circunstâncias por si mesmo escolhidas aquando da encarnação. Digamos que se trata de um jogo para aperfeiçoar as qualidades da alma, no seu seguro regresso à casa maior, corpo de Deus.

Porém, tal como o E.T. apontando as estrelas, dedo cintilante a pedir refúgio, seguimos encandeados pela nostalgia do retorno. Queremos recuperar o Paraíso perdido, a União primordial, na variante moderna da narrativa romântica, com carreira de sucesso, filhos louros e rosados (de preferência um casalinho), mais gadgets de última geração. E nesta ânsia trocamos dentro por fora, o ser por ter e fazer, ignorando que já estamos onde sonhamos chegar. O convite é, pois, respirar — acolher, deixar partir —, reconhecendo que a casa somos Nós, pois dentro de ti, de mim mora Deus, aqui e agora.

Image Diana V. Almeida. Street Art. Lisboa.

O poder da alegria

Lua Nova_14 dezembro 2020

A potência desta lua é ampliada pelo eclipse solar, que dá força ao recomeço aqui delineado. Trata-se de reconhecer que a energia mental por nós projetada cria, de facto, a realidade com que nos confrontamos. Se a nossa grelha de pensamentos e crenças reverberar no medo, vamos efetivamente experienciar a falta de amor.

Conhecemos bem os dias em que saímos de casa imbuídos de espírito positivo, abertos às bênçãos da vida, e tudo flui de modo harmonioso — até os contratempos nos dão ânimo, devido à criatividade gerada para os superar. Em contraste, quando fechamos o coração e nos deixamos consumir pela mágoa e pelo rancor, as horas parecem gerar o caos, bloqueio atrás de bloqueio.

Como podemos, pois, alinhar a nossa bússola interna com o eterno presente, entregues à sabedoria de Deus manifesta na Terra? Como abandonar os desejos violentos que nos consomem, na certeza de que só a confiança na graça divina nos fará prosperar? O primeiro passo será respirar em consciência, reconhecendo que reverberamos no eterno fluxo de expansão e contração, movimento e repouso. Depois cultivar a gratidão, na certeza de que todas as desventuras nos levam a crescer. Enfim, reconhecer e honrar o poder da alegria, a cintilação interna que nos cura da cisão e nos aponta caminho, abrindo portais.

Image Diana V. Almeida. Street Art, Lisboa