O compasso do amor

Lua Nova_10 julho 2021

Encarnamos para experienciar a nossa identidade em relação — nenhum de nós é uma ilha, antes parte de mais vasto continente, parafraseando John Donne. Vamos estabelecendo os contornos de quem somos no encontro, e para isso praticamos dois movimentos contrários, mas, paradoxalmente complementares. Por um lado, precisamos de estabelecer limites, dando ao outro indicação das nossas fronteiras, o que implica a renovada consciência do nosso território interno. Por outro lado, só baixando defesas conseguimos ser habitados e, em simultâneo, habitar o coração de quem amamos.

Trata-se de uma dinâmica bem desafiante, como sabemos, em especial numa cultura que promove a distração — seja através do consumo de substâncias que alteram a nossa química interna (como o açúcar refinado, o café, o tabaco ou as chamadas drogas, conceito, na verdade bem mais abrangente), ou através de comportamentos aditivos (como a aquisição compulsiva, o trabalho excessivo, os labirintos das redes sociais, as infindáveis temporadas das séries da Netflix e por aí fora). Assim, o natural ruído da mente é ampliado ad infinitum, numa espiral que mais e mais nos afasta do silêncio interno capaz de acolher a intuição.

É interessante observar como vamos repetindo padrões de fuga à intimidade, num eco de traumas oriundos da infância ou mesmo de outras vidas — nossas, da linhagem em que encarnamos, da cultura onde vivemos… Tamanha é a complexidade desta teia que se torna ainda mais crucial cultivar a atenção para, conscientes embora da imensidão do mistério, podermos agir em liberdade, adequando as nossas escolhas ao fluxo do instante, em tempos cada vez mais acelerados (sou só eu que me espanto por já estar na segunda metade de 2021, com dias em que a lista das tarefas fica sempre a meio?).

Esta Lua levou-me a observar com curiosidade as oscilações do meu compasso interior, que se contrai num desejo fusional com o outro ou se abre até aos limites da exclusão, na velha dança entre codependência e isolamento. Olhando com compaixão a dor do desejo, permito-me criar novos passos, assumindo responsabilidade pelos meus sentimentos e comunicando-os aos outros, de modo a tecermos juntos uma teia de interdependência, em que todos e cada um possamos conhecer e dar a conhecer o nosso espaço.

Image Diana V. Almeida. Street Art, Lisboa.