Famílias do coração

Lua Cheia_22 agosto 2021

Nos últimos anos, o conceito de “comunidade intencional” tem-se vindo a refinar, com cada vez mais grupos de pessoas juntando-se em eco-aldeias, cohousing, ashrams, cooperativas e diversos outros projetos que buscam modos de vida alternativos ao sistema hegemónico. Muitas destas comunidades são verdadeiros tubos de ensaio, tanto a nível político como socioeconómico, explorando modelos de sustentabilidade e autonomia mais ecológicos e humanos.

A maioria talvez ainda não se tenha apercebido de que a atual crise indicia o advento, lento mas certo, de um novo momento histórico. A tão falada Era do Aquário (anunciada pela segunda Lua Cheia neste signo) parte precisamente da tomada de consciência de que as estruturas antigas, de hierarquia rígida e decisão centralizada, têm os dias contados. A perturbação global evidencia-se nas catástrofes ecológicas (previstas pelos ativistas há décadas, mas só agora tomadas um pouco mais a sério, quando as enchentes e os incêndios afetam os países ricos), na depleção dos combustíveis fósseis (base da atual economia) ou nos desastres humanitários, num mundo onde a riqueza está concentrada numa minoria (os tais 1%) e os recursos básicos para uma vida digna continuam inacessíveis a milhares de milhões de pessoas — basta lembrar que morrem de fome ou subnutrição 25 mil pessoas por dia (números das Nações Unidas).

Muita gente está a compreender que o modelo demográfico metropolitano não funciona, esvaziando geografias para concentrar a maioria da população em zonas urbanas, onde as tensões e as desigualdades sociais aumentam. Por isso, assistimos a um retorno à ruralidade, à microeconomia e às redes locais baseadas em modelos organizacionais que propõem a responsabilização individual e oferecem a segurança do coletivo. É tempo de materializar o sonho e construir, passo a passo, comunidades conscientes. A alienação social fomentada pelo individualismo competitivo e pelo fechamento na família nuclear dá agora lugar a espaços mais amplos, em que o fruto do amor tem terra e água para prosperar. Será, pois importante compreenderes onde queres afundar raiz e fazer crescer a tua família do coração.

Image Diana V. Almeida. Street Art, Madrid.