Rituais fotográficos?

Há uns anos, uma bruxa amiga convidou-me para facilitar um workshop de escrita criativa num evento por ela organizado. Ocorreu-me sugerir também um ritual fotográfico para honrar o corpo que a nossa alma escolheu habitar nesta encarnação. Queria cocriar um momento de alinhamento interno para acolhermos o corpo físico na sua imperfeita — e por isso magnífica, miraculosa — beleza. O retrato resultante da sessão seria colocado no altar pessoal do participante, recordando a divindade que É.

Na verdade, esta sugestão veio descrever algo que eu vinha fazendo há anos com várias pessoas que ia fotografando, em contextos tão diversos como festas de aniversário, comemorações de gravidez ou festivais de trance. Uso a câmara como instrumento para guardar memórias felizes ou detalhes de espanto que perfuram a superfície mais ou menos homogénea do quotidiano.

Acresce aqui a componente do rito, enquanto cerimónia em que assumimos cumprir determinada meta, através de uma série de movimentos que vão ao encontro do mundo interior e nele provocam impacto. Trata-se de uma viagem de exploração em que assumimos desconhecer o mapa, mas arriscamos, ainda assim, realizar um percurso que pretende gerar mudança.

Neste caso, o desafio é amar o nosso corpo enquanto manifestação do espírito, instrumento animado que nos permite existir no experimento terreno. A autoimagem saudável é requisito essencial para uma identidade equilibrada, como bem sabemos. Estes encontros pretendem, pois, investigar a potencialidade do amor próprio, além de clichés e de expetativas histriónicas.

Criamos juntos um campo energético em que a autoexpressão possa ter lugar, longe do julgamento que nos leva por defeito a calar a experiência sensorial no seu âmbito mais profundo. São duas, as propostas. O “Retrato Sagrado” decorre preferencialmente na natureza, convidando-nos a entrar num espaço de silêncio, em que o corpo se sente acolhido e escutado. O “Corpo Vivo: Deusa Grávida” vai buscar a iconografia da Deusa Mãe para resgatar a sensualidade feminina matricial e tem lugar no espaço íntimo da mulher, no período final da gestação.

Ambas as propostas assentam na liberdade expressiva da pessoa retratada, convidada a convocar em simultâneo a exultante alegria da encarnação e a dolorosa intensidade deste desafio de sermos humanos, que tantas vezes chama as forças misteriosas da autossuperação. Trata-se de uma oportunidade de encontro com luz e sombra, acolhendo as polaridades internas na dança dinâmica da consciência. Vamos crescendo na escolha da liberdade.

E tu, como queres ser retratado?

Image Diana V. Almeida. Elizabete, Sintra, agosto 2020.
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