Lua Nova, 30 abril 2022

Durante muito tempo vivi aterrorizada com escolhas, recusando fechar caminhos — queria sol na eira e chuva na horta. Escolhia aos soluços, crendo haver sempre mais por onde escolher. Driblava assim o compromisso a vários níveis, acossada pelo medo de aprofundar intimidade — em primeiro lugar, comigo mesma, claro. Não queria perder pitada e tendia a comparar cenários, imaginando a vantagem das escolhas alheias. Numa adolescência tardia, recusava assumir responsabilidade plena e testava a aceitação de grupo, apontando sobretudo para fora.

Hoje em dia, o uso compulsivo da tecnologia, nomeadamente a constante ligação às redes sociais e aos chats, acentua tal tendência. Também a cultura de consumo explora esta ansiedade, circunscrevendo o livre arbítrio às transações comerciais, com garantia de final feliz se escolhermos o produto certo. Em busca de uma identidade socialmente aprovada, dispersamos atenção a multiplicar escolhas que em nada melhoram a nossa vida. Canalizamos a vitalidade para domínios em que a escolha é vazia e não impacta o nosso real bem-estar. Como bichos bem amestrados, brincamos ao jogo da escolha e construímos nichos de mercado.

Tais distrações dissipam energia vital, mantendo-nos afastados de um plano simultaneamente mais vasto e subtil. A armadilha da pequena escolha torna-nos cegos a um contexto alargado, com implicações geopolíticas e repercussões a nível espiritual. Na ânsia de obedecer aos ditames do marketing, vamos acumulando crimes político-ecológico-sociais e alimentando a concentração da riqueza num número cada vez mais reduzido de megacorporações. Desperdiçamos, assim, a parte mais significativa da existência, desligados do propósito da nossa encarnação enquanto seres humanos — o progressivo aprofundamento da consciência.

Sim, a vida é abundante em ofertas; há, porém, tempos mais propícios a determinadas escolhas. Se não escolhemos no momento certo, podemos perder a oportunidade ou andar à roda, sem saber por onde seguir. É tempo de clarificar intenções, soltando apegos ao passado e projeções de futuro, cientes da nossa responsabilidade como cocriadores de um mundo novo. Usufruindo da atual clareza criativa, foca-te no resultado e alarga a perspetiva, construindo com paciência e coragem aquilo que queres manifestar.

+ Se a minha escrita te toca, considera trabalhar comigo no Escrever o Coração (mais info AQUI), um workshop que une técnicas meditativas e de yoga, com estratégias de criatividade, ao encontro de ti mesm@. Próximas datas — 15 maio, Alegria; 5 junho, Amor.

Depois do verão vou propor um curso de escrita pessoal online e/ou presencial e retiros de fim de semana em colaboração com outros facilitadores.

Escreve-te!

@ Diana V. Almeida. Street Art, Almada, April 2022.
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