Lua Cheia, 16 abril 2022

Há momentos em que o passado nos parece cair em cima. Aqueles episódios mal resolvidos (que escolhemos ignorar mas nos ensombram periodicamente) surgem vívidos em sonhos ou em (re)encontros inesperados com personagens com quem ainda temos feridas por tratar. Compreendemos que de nada adianta varrer o lixo para debaixo do tapete, como evidencia, aliás, a nível macrocósmico, o atual estado ecológico do planeta.

É importante sarar. Tal não significa apenas “deixar cair”, atitude que por vezes se traduz apenas em fechar os olhos, numa recusa imatura de confrontar a sombra. Antes pelo contrário, a cura pede um mergulho na dor, para podermos integrar as lições que daí advêm e seguirmos mais sábios e leves.

A recusa de aprofundar a escuta interna dá azo à disfuncionalidade da repetição, deixando-nos presos em padrões que nos impedem de evoluir. Como crescemos sempre no contacto com o outro, será, pois, crucial olharmos para o nosso álbum de memórias e perceber com quem ainda temos coisas por resolver.

Não se trata de um processo mental de ajuste de contas, que nos levará a prosseguir alimentando o drama do deve e do haver. Aqui a chave está no coração, na nossa capacidade de evocar a compaixão para reconfigurar (resignificar, como dizem os psicólogos) episódios traumáticos e deles podermos retirar lições de vida.

O trauma é, por definição, algo estático, iterativo, que permanece em loop assombrando a nossa ação, impedindo uma presença inteira no mundo. É uma rasura que se inscreve a nível fisiológico e é depois retomada em eco pela mente, que vai repisando razões. A consciência dessa falha sistémica ajudar-nos-á a iniciar o processo de integração. A vida há de depois confrontar-nos com situações similares, para que possamos implementar a sabedoria entretanto construída.

Remato com uma piscadela de olhos ao título, citando Santo Agostinho que, na simplicidade dos iluminados, resume a coisa assim — “Ama e faz o que quiseres. Se calares, cala por amor. Se gritares, grita em amor. Se retificares alguém, retifica por amor. Se poupares alguém, poupa por amor. Se a raiz do amor estiver em ti, só amor serão seus frutos”.

+ Se a minha escrita te toca, considera trabalhar comigo no Escrever o Coração (mais info AQUI), um workshop que une técnicas meditativas e de yoga, com estratégias de criatividade, ao encontro de ti mesm@. Próximas datas — 1 maio, Fluir; 15 maio, Alegria; 5 junho, Amor. Escreve-te!

Coração
Image Diana V. Almeida. Street Art. Iron series.
Partilha:
Scroll to Top