Sou um peixe da palavra. Para mim, a linguagem sempre foi rio caudaloso onde nado em alegria, descobrindo sentidos, sendo descoberta assim. Antes de saber ler e escrever, já inventava histórias e desenhava garatujas nos livros, língua de fora, chamando concentração. Depois, pulava no sofá do quarto azul para puxar inspiração, escrevendo textos que levaram a professora a chamar a minha mãe sugerindo que deixasse de ser ela a fazer os meus trabalhos de casa. Mais tarde ainda, era verão, na sala de jantar da pensão Estrela do Mar, os meninos que não queriam comer a sopa vinham sentar-se à nossa mesa, para eu os entreter com aventuras criadas ao sabor do seu desejo. Contava e escrevia. Fui enchendo pelos anos cadernos com paisagens invisíveis, habitadas em segredo. De lá vieram certos contos e poemas.

Passava muitas horas dentro dos livros. Desligava atenção do mundo lá fora e caminhava pelas histórias, que continuava tecendo em sonhos, acordada e a dormir, sentindo as personagens como amigos de verdade. O meu avô mandou o meu pai levar-me ao médico por ser surda, pois quando lia não ouvia o seu chamado insistente. Comecei então a cruzar mundos, o som com a palavra, escutando Bach nos discos da sala, a palavra com a pintura nas visitas ao museu, no fim de semana em família. Era do corpo que vinha a palavra, sim, mas ela vivia também oculta nas plantas, nas nuvens cruzando o ar, nas ondas batendo cânticos contra as rochas. Voltava aos livros cheia e certa, ardendo de mistério horas a fio, perdida.

Quando comecei a dar aulas, aos 23 anos, desde logo apliquei uma série de estratagemas infalíveis (achava eu) para pôr os alunos a escrever  com alegria, trazendo para os textos vida e dons. Uma década depois, abordei a Madalena Victorino (programadora cultural e coreógrafa, na altura responsável pelo CPA, Centro de Pedagogia e Animação do CCB, Centro Cultural de Belém) voluntariando-me para integrar as equipas de facilitadores criativos que exploravam pedagogicamente as exposições. Quando o Museu Coleção Berardo veio a ser instalado no CCB, fui convidada a integrar a equipa multidisciplinar que animava as galerias, interagindo diretamente com os visitantes. Foi este modelo que depois vim a recuperar para o meu projeto de pós-doutoramento, colocando excertos poéticos em diálogo com fotografia contemporânea.

Em 2014, nasceu o Escrever o Coração. A proposta enraizava a ação criativa no corpo, através de estratégias meditativas que visavam criar um estado de fluxo propício à recetividade da inspiração. Combinava também estímulos visuais e verbais, dançando entre arte e literatura. Nestes encontros participaram já centenas de pessoas, em vários contextos, desde festivais ao ar livre, em que se escrevia sobre fardos de palha, até anfiteatros universitários, em que o corpo tinha de se mover além dos constrangimentos da arquitetura do ensino formal. Os tópicos têm variado ao longo do tempo, mantendo-se, na verdade, sempre ancorados numa mesma linha de pensamento e sentir, no intuito de propiciar o desenvolvimento humano e potenciar o fogo criativo de cada um.

Numa sociedade que tende a amestrar meninos e meninas, obrigando-os a serem bem comportados e certinhos, para crescerem como adultos produtivos, encontro muita gente que não se acha criativa, ou que, na exigência da vida quotidiana, perdeu o gosto pelo jogo, e dá ouvidos ao censor interno repetindo, com voz fanhosa e grave — “o que escreves não vale nada, por isso é melhor estares calado; poupas papel e caneta!”. O Escrever o Coração resgata a liberdade de criar, de escrever disparates, ignorando a pressão da mais-valia. Só assim podemos ir mais fundo dentro de nós mesmos, ao encontro das palavras secretas que há tanto esperam ser escutadas, escritas. Escrever é ser escrito, no momento em que nos deixamos habitar pelo génio do espírito. Ficamos assim conectados com o nosso poder singular, na certeza de que somos livres de escolher criar caminho a cada encruzilhada ou, mais prosaicamente, a cada respiração.

Eu aqui continuo escrevendo, unindo num relâmpago coração e cérebro, barriga e mão. Proponho até junho sete datas para workshops e também ofereço tutorias individuais, caso queiras desenvolver um projeto de escrita mais personalizado.

Para mais informações sobre o Escrever o Coração, para te inscreveres num dos workshops ou para começares uma tutoria, vai ao meu site ou envia-me uma mensagem privada, por favor. Grata!

Slanted self portrait on my patio. Sintra, June 2019.
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