O sinal do coração (escolhas de vida)

Certa tarde de 2014, sentei-me à secretária no escritório ensolarado disposta a focar energia na finalização de uma série de ensaios académicos que tinha vindo a apresentar em congressos um pouco por todo o mundo, mas que precisavam do ajuste final para publicação. Estava a meio da bolsa de pós-doutoramento, investigando as representações do corpo e do desejo na obra de duas poetas e duas fotógrafas contemporâneas, e desenvolvendo um projeto de escrita no Museu Coleção Berardo, enquanto dava aulas na FLUL (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa). Desta feita, tinha garantido que não haveria distrações, já que, sempre que me tentava focar neste propósito, surgiam inúmeras tarefas pedindo atenção imediata — dobrar a roupa no quarto, aspirar a sala, ir à mercearia comprar uma alface; enfim, tudo e mais alguma coisa.

Sentei-me com convicção e abri o dossier onde me aguardavam vários papers sobre uma série de temáticas do meu apaixonado interesse. Decidira começar por rever “’Has though perceived the breath of the earth?’: Terrence Mallick’s Ecosophy in The Tree of Life”, uma leitura espiritual e eco-poética das estratégias composicionais deste filme, na ótima da chamada Deep Ecology, do filósofo norueguês Arne Næss, que propõe construir uma matriz identitária a partir da nossa identificação consciente com todas as formas de vida. Apresentara este paper na universidade de Trondheim dois anos antes a partir de um esquema visual, o que causara alguma perplexidade aos meus colegas, (salvo raras e brilhantes exceções) habituados a ler as suas considerações em tom monocórdico até ultrapassarem o tempo acordado, num repetitivo ritual entediante (como sabe quem frequenta estes lugares). Tal implicava, porém, reler agora uma série de notas para poder articular discursivamente a minha argumentação.

Sentei-me, dossier aberto. Respirei. E de súbito senti um relâmpago no peito até ao coração. Respirei, assombrada ante a clara mensagem do meu corpo. Do centro da alegria vinha este sinal indicando não ser este o caminho. E agora?

Era primavera. Estava prestes a fazer 42 anos. E de súbito confirmava-se a minha crescente suspeita de que talvez eu não tivesse sido talhada para seguir, perseguir, dada a crescente competitividade no meio, uma carreira académica.

A precariedade laboral dos investigadores na área das artes e humanidades e uma natural tendência à rebelião, após oito anos enclausurada num colégio interno, tinham-me levado a construir rotas paralelas de viagens, comunidades alternativas e magia. Fizera um primeiro retiro de meditação aos 24 anos, quando vivi uns meses em Toronto — na versão oficial, fazia pesquisa para a tese de mestrado sobre Raymond Carver; na versão undercover, vivia num prédio ocupado frente à Art Gallery of Ontario e trabalhava como bus girl no restaurante The Boat, onde, sem suspeitarem das baratas que eu destramente escondia sob o  cesto do pão, se juntavam os mais afluentes imigrantes portugueses. Nessa altura, para mim meditar era pensar profundamente, e o retiro Vipassana de dez dias em silêncio, sem sequer poder buscar palavras pela escrita, revelou-me o misterioso mundo da consciência, que continuo a explorar.

Regressada, fiz um pouco de tudo, desde trabalhar como assistente editorial na Assírio & Alvim (depois de ter passado pela livraria do Cinema King), ainda no tempo do Hermínio Monteiro, até fazer traduções para etiquetas de hipermercado ou gravações de livros áudio espiritistas, num quarto interior da Almirante Reis. Em 1997, comecei a dar aulas na Escola Superior de Educação de Beja, onde o meu cabelo rapado e o piercing na sobrancelha levantaram cruéis suspeitas entre a população e os colegas de trabalho. Catapultada para o Portugal profundo e retrógrado (parecia ter entrado na Máquina do Tempo do Professor Pardal, nos livros aos quadradinhos da Walt Disney), dei de frosques assim que pude, claro, e voltei à incerteza de horários parciais, em várias instituições do ensino superior.

Valham-nos as bolsas da santa FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia), que me permitiram fazer o doutoramento sem ter de pensar muito em questões de sobrevivência e apostar, em paralelo, no desenvolvimento de uma série de competências como terapeuta. Ante a censura mais ou menos velada daqueles que achavam inúteis tais desv(ar)ios, fui fazendo formações de reiki e de xamanismo, aprendendo técnicas de terapias prânica e multidimensional, participando e organizando rodas de cura e círculos de mulheres.

A partir de 2007, fui convidada para dar aulas na FLUL, primeiro graciosamente (que quer dizer sem ganhar nada, visto ser bolseira) e depois com contratos a tempo certo e percentagem reduzida, subindo até aos 90%, não mais, para evitar apego institucional e maior responsabilidade por parte da entidade empregadora. Ali fiquei até 2020, criando várias unidades curriculares (vulgo, cadeiras) que aliavam conteúdos teóricos à componente política e existencial, numa abordagem baseada em estratégias pedagógicas de educação não formal, procurando acolher as experiências, os sentires e os saberes dos alunos para pensarmos juntos. Aprendi imenso com as centenas de jovens adultos com quem tive o privilégio de poder trabalhar ao longo de quase vinte e cinco anos e é com emoção (já de lágrima ao canto do olho, confesso!) que recordo esses anos de professora.

Quando me foi comunicado que o meu contrato não seria renovado, para evitar elos precários e impor ordem nas tropas, era claro para mim — desde o sinal do coração, em 2014 — que seria tempo de mudar. Para choque (e simultâneo alívio, creio, dada a minha presença algo disruptiva numa academia cada vez mais conservadora) dos meus superiores, comuniquei claramente não tencionar apresentar currículo para os diversos concursos onde se poderia encaixar o meu perfil. Chegara o tempo de me dedicar inteira às artes da cura, consciente de ter pouco menos de metade da vida para o fazer. Demorei mais de um ano para conseguir conceptualizar a minha oferta de modo coerente e conciso. Estes vídeos (realizados pela Aurèlie, documentarista profissional que acedeu generosamente a colaborar comigo) são em parte o resultado desse processo de reflexão e síntese. Uma bruxa-artista ao vosso serviço, pois.

A minha mãe visitando-me na minha primeira casa alugada quando regressei de Toronto, na Vila Mendonça, à Estefânea, em Lisboa