Lua Nova, 30 maio 2022

Às vezes, quando me deixo prender pela personagem da boazinha, vem-me à cabeça a história dos vendilhões do templo, vendo Jesus Cristo, com as suas magníficas barbas eriçadas de fúria, varrer à chicotada os que confundiam espírito e lucro. Nestes dias, em recobro da visita do vírus, embora não tivesse ainda lido nada sobre os astros, já sentia ferver no sangue a vontade de expulsar do meu campo de proximidade uma série de pessoas cujo comportamento não honra o compromisso de amizade.

Neste mundo New Age, o apelo ao amor próprio por vezes transforma-se em cegueira face ao outro. As pessoas estão-se nas tintas para as necessidades alheias, nos tempos de crise. E continuam a sua vidinha como se nada fosse, incapazes de se desviar um milímetro para servir.

Sim, adoro partilhar a alegria da pista de dança, o mistério da meditação, o encanto de um passeio na floresta. Mas (a puta da adversativa vem sempre estragar a rima!) também sei acolher a tristeza e cuidar da comunidade de amor, oferecendo o mais importante — a disponibilidade para acolher, para Ser solidária. Por isso, e para não me alongar demasiado, que ainda estou em recuperação e, segundo percebo, a melhor cura é mesmo a entrega à inação, deixo o convite de limpeza. Corta esse peso morto dos que dizem, mas não fazem, dos que prometem e não dão a cara. A amizade constrói-se ao longo do tempo, com dedicação e escolha. Haverá quem vá ficando pelo caminho, caso não se ajustem energias. É pena, diz o apego. Seguimos assim mais leves, lembra a verdade.

Image Diana V. Almeida. Street Art

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