Lua Cheia, 13 julho 2022

Todos temos feridas. Todos sofremos desalento e dor. Por vezes conseguimos perceber de onde vem o trauma, mas raras vezes conhecemos a imensidão da sua raiz, que poderá espalhar-se por gerações ou mesmo por várias vidas — esta vida, que em si mesma se divide em tantos “antes e depois”, e outras.

Na infância, desenvolvemos estratégias para lidar com a disfuncionalidade da família (e, convenhamos, não há parentalidade perfeita, nem escola, tampouco sociedade). Crescemos, pois, adotando armaduras que acabam por nos condicionar a padrões repetitivos, coartando o crescimento. Podemos passar por cá ficando infantes até ao fim. Creio, aliás, que tal se passa com a maioria, que vai assumindo papéis socialmente aceites, cumprindo utilidade, sem, no entanto, ousar mergulhar no cerne da sua obscuridade, onde reside a chave da integração.

Podemos passar por cá perpetuando aquilo que assumimos ser norma(l). Porém, quando nos apercebemos de quão estragados estamos, começamos normalmente por apontar o dedo, encontrando culpa alheia e assumindo comportamentos contrários, o que, na realidade, nos mantém prisioneiros na mesmíssima polaridade de reação ativa. Vamos, pois, assim repetindo mais do mesmo, reforçando os caminhos neurológicos de ação.

Há quem tenha a graça (com maiúscula!) de chegar a um ponto final. Seja por natural gentileza ou por quebra, confrontamo-nos com a evidência de que temos de abrir portas fechadas, enfrentando o escuro. Vez após vez, num processo moroso, levamos a luz ao medo, aprendendo compaixão por nós mesmos e por aqueles que nos falham, sendo, afinal, os nossos maiores mestres, num plano mais elevado.

Às vezes o escuro é tão assustador que precisamos de ser levados pela mão, de um terapeuta, uma bruxa ou uma árvore, por exemplo. Mas a viagem traz a maior recompensa, ligando-nos à presença viva do coração partido, aberto ao amor, em empatia criativa com o mundo. Possamos todos abrir a porta do escuro e começar, continuar esta viagem.

Image Diana V. Almeida. Street Art.

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