Lua Nova, 29 junho 2022

Robert Frost (1874-1963), cuja aparente simplicidade tem vindo a ser debatida, escreveu um poema sobre o encontro de uma linha de comunicação que passa por reconstruir o muro que separa a sua propriedade dos pinhais do vizinho. Contrariando uma força misteriosa (quem sabe os elfos, brinca o poeta) que se opõe à verticalidade e vai desmontando as pedras, quando chega a primavera ele e o vizinho entregam-se ao trabalho de redefinir território. “Mending Wall” [Reparando o muro] relata esse ritual de união que, paradoxalmente, parece impor ainda maior distância, em especial porque o sujeito poético se entrincheira no julgamento do vizinho com quem coopera. O texto tem sido lido de dois modos, quer como uma condenação veemente das fronteiras e uma apologia da livre circulação, quer como a defesa da pertinência de traçar limites que tornem a convivência possível, no respeito pela diferença.

Para mim, a aprendizagem de estabelecer limites emocionais saudáveis tem sido um imenso desafio, ao longo da vida. A minha tendência para o fascínio fulgurante leva-me a abrir portas a quase estranhos, sem dar tempo para construir uma interação de mútuo (re)conhecimento, o que, repetidas vezes, me tem causado dissabores. Para mais, a nível amoroso, inclino-me para um modelo de codependência, em que o relacionamento tende a ser fusional, elidindo fronteiras e tornando impossível uma dinâmica de espelhamento da diferença. Depois da corrida para o outro, segue-se, mais tarde ou mais cedo, a explosão do medo e o recolhimento ensimesmado, na recusa do contacto.

A energia desta Lua fala da dança entre potencial de entrega e autoconsciência de limites. Se, por um lado, é importante abrir-me ao mundo e à verdade do outro que me chega; por outro, urge compreender o meu lugar de separação e respeitar a minha singularidade. Aprendamos, pois, a calma de ir construindo amores que possam durar pelas estações, sem a velocidade das projeções fantasiosas que conduz à colisão. Só cultivando o absoluto respeito pelos nossos próprios limites, cientes do nosso direito a existir tal como somos, conseguiremos conciliar flexibilidade e estrutura. O genuíno encontro nasce deste reconhecimento.

Image Diana V. Almeida

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