Repetição e diferença

Lua Cheia, 10 setembro 2022

No nosso mundo veloz, sedentos de novidade, tendemos a desprezar a repetição. Queremos mais e diferente, segundo a lógica mercantilista, que apresenta como exercício de liberdade a escolha entre dezenas de produtos nas prateleiras do supermercado — todos eles com componentes idênticos, lidas as letras pequenas, e, muito provavelmente, pertencentes ao mesmo conglomerado financeiro, tendo em conta a crescente concentração de capital. Esta mentalidade fomenta o aborrecimento e estimula a busca de estímulos contínuos. Mais, retira-nos a possibilidade de fruir o momento presente, que, apesar do nosso máximo empenho, nunca é tão excitante quanto as vidas coloridas das estrelas de futebol e cinema, do jet-set e dos super-heróis dos jogos de consola.

O quotidiano é tecido de repetições, milhares, milhões de micro-escolhas-gestos-movimentos iterados dia após dia, após dia, após… até ao momento em que deixamos de poder repetir aquilo que tínhamos aprendido, e tomado por garantido, começando o lento caminho ascendente (assim esperamos!) para a morte do corpo físico. Porém, curioso paradoxo, nunca nada é igual. A cada instante, nascem e morrem milhões de células no nosso corpo, somos confrontados com, maiores ou menores, alterações circunstanciais, e convidados a improvisar.

De facto, é a falta de atenção que nos torna cegos à eterna novidade das coisas e nos leva a crer que a diferença tem necessariamente de ser algo espetacular, cheio de luzes e tambores a rufar. Se, por um lado, a rotina liberta energia, permitindo-nos realizar tarefas em modo automático; por outro, prende-nos num mecanicismo bacoco. Cabe-nos a nós eleger o modo de potenciar estes segmentos temporais ganhos pelo domínio de certas competências quotidianas — podemos respirar em consciência; repetir um mantra; escutar um podcast interessante, que nos abra o coração; acolher o silêncio, sempre povoado de sons…

Vivendo encarnados nesta dimensão de fisicalidade, temos necessariamente de repetir para aprender e melhorar, sim. Podemos, pois, cultivar o hábito da presença viva, como as virgens do Novo Testamento que mantiveram as lamparinas acesas até ao momento em que chegou o noivo, noite escura — sejamos virgens para o tempo presente, abrindo o nosso Ser à inusitada revelação do amor que nos (a)guarda.

Image Diana V. Almeida. Sisters contemplating a kolam on their street. Tamil Nadu, India, 2008.

Escrever o Coração_Outono 2022

Setembro
11 — Criatividade e Amor

Masterclass
Feira Alternativa de Lisboa, Sala Crescer (19h00-20h)

13 — Live Instagram

Propostas de escrita ao vivo

Online (19h30-20h30)

17 — Escrita de Mim

Curso de escrita pessoal

Restantes sessões a 1, 15 e 29 out., 12 e 26 nov. 2022

Online (15-19h)

24 — 7 Escritas

Conhecer e potenciar a energia dos 7 chakras

Restantes sessões a 8 e 22 out., 5 e 19 nov., 3 dez., 7 e 21 jan. 2023

Online (15-19h)

25 — Caminhar no Coração, com Maria João Ferraz

Caminhada meditativa em silêncio, com propostas de yoga e de escrita

Floresta de Sintra (10-16h)

Outubro
2 — Riding the Water Tiger II: Creativity Festival

Quinta Ten Chi (programa em construção)

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